Há um momento curioso em toda xícara de café.
Ela chega quente.
A fumaça sobe lentamente.
O aroma ocupa o ambiente antes mesmo do primeiro gole.
É quase um convite para interromper o que estamos fazendo.
Nem sempre aceitamos.
Às vezes o telefone toca.
Uma mensagem precisa ser respondida.
Um compromisso parece mais urgente.
"Depois eu tomo."
O café espera.
Quando voltamos, a fumaça já desapareceu.
O aroma já não é o mesmo.
O primeiro gole ainda aquece.
Mas não como antes.
É curioso como quase ninguém reclama disso.
Apenas aceita que o café esfriou.
Talvez porque saibamos que algumas coisas não esperam.
O calor de uma xícara.
A luz do fim da tarde.
O sorriso de uma criança.
O silêncio de quem resolveu apenas fazer companhia.
Existem momentos que não fazem barulho quando passam.
Eles simplesmente deixam de estar ali.
Talvez seja por isso que as melhores conversas raramente aconteçam porque foram marcadas.
Elas surgem quando alguém decide deixar a xícara sobre a mesa por alguns instantes e oferecer atenção a quem está ao lado.
Nem toda oportunidade volta aquecida.
Algumas chegam discretamente, como um café recém-passado.
Se demorarmos demais para percebê-las, continuam existindo.
Mas já não são exatamente as mesmas.

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